A vida é tão maior que isso

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80 (Yuri Leonardo)

Dizem de alguns povos que são como formigas, diligentes e submissos à coletividade. Pensando assim, Fortaleza é como um formigueiro que acabou de ser pisado: cada formiga corre, sozinha e desnorteada, na tentativa de deixar o caos para trás.

Ônibus apinhados de gente, ruas atulhadas de carros. Não existe contra-fluxo: todas as horas são horas do rush.  Nos corpos, sempre em rota de colisão, a sensação renitente de que o inferno são os outros. Na verdade, o inferno está em cada um.

São pobres diabos que, imersos no próprio egoísmo, viram legião, possuindo a cidade que os abriga, em uma confusão de vontades individuais inconciliáveis. O que importa é prevalecer sobre o outro, mas ninguém de fato prevalece. E todos amaldiçoam a cidade, sonham com o dia em que fugirão dela. É mais cômodo que tentar transformá-la.

Fortaleza é um lugar hostil. O sol é escorchante, onipresente. Cega os olhos, torra a pele. À beira-mar, espigões privatizam o vento que poderia aliviar o dia-a-dia abrasador. E, quando a chuva vem, não lava as ruas nem as almas. Inunda-as.

Mas é só olhar pro céu para esquecer tudo isso. Mesmo com a vista quase sempre posta nas pedras de calçamento – para não tropeçar –, ainda encontro alívio em ver de relance a vastidão azul que paira imperturbável sobre todos nós, como a escancarar a pequenez de nossas aflições. Nos dias cada vez mais próximos do meu futuro, não haverá sempre um céu assim.

Débora Medeiros

Débora Medeiros

Jornalista, pesquisadora, geek.

"Ao escrever, nós recebemos segundas chances." Jonathan Safran Foer

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